A Equipe Comenta: The Crown – 4ª temporada (2020)

 

Amanda Sperandio

Com o aniversário de 73 anos de casamento da rainha Elizabeth II e o príncipe Philip, Duque de Edimburgo, neste 20/11; o rumor de que a rainha abdicará o trono em favor de seu filho Charles — mesmo contra a vontade do povo, que prefere ver William assumir ao invés do pai, e da oposição do outro filho da rainha, príncipe Andrew; e as desavenças entre o príncipe Harry e o resto da família, principalmente no que diz respeito à avó, as expectativas para a quarta temporada de The Crown estavam mais altas do que nunca. No entanto, talvez o fator que mais tenha sido responsável para a ansiosa contagem regressiva para o dia 15/11, estreia da nova temporada, seja a inserção de Lady Diana na trama.


O enredo é retomado em 1979 durante um conturbado período para os irlandeses. Em uma fenomenal aula de roteiro e montagem, a série nos situa a respeito do contexto da época, em que a Irlanda do Norte — ainda sob domínio britânico após a divisão do território em 1922, ano seguinte ao reconhecimento por parte da coroa da independência da Irlanda — se via em intenso conflito. Isso porque parte da população — republicanos católicos — defendia a reunificação à República da Irlanda, e outra parcela — unionistas protestantes — almejava continuar parte do Reino Unido. O conflito em si eclode quando a polícia reprime de maneira violenta uma manifestação pacífica do grupo republicano em Derry, Irlanda do Norte. O Exército Republicano Irlandês (IRA) surge como grupo armado de ataque a militares, aumentando a violência de ambos os lados. Em 30 de janeiro de 1972 ocorre o ápice dos conflitos, no episódio conhecido como “Domingo Sangrento”, — imortalizado na música Sunday Bloody Sunday da banda U2 — no qual 14 pessoas foram mortas por tiros de paraquedistas britânicos.



Os relatos, entrecortados com cerimônias estonteantes da coroa contrastam drasticamente, mostrando um mundo de privilégios e desligado do que acontece portões afora. Enquanto isso, Charles (Josh O’Connor) aproveita o que o pai considera como “devassidão” após o casamento de Camilla Parker Bowles (Emerald Fennell) — a atriz brilha ao conseguir deixar a personagem ainda mais antagônica — e, esperando a irmã mais velha de Diana (Emma Corrin) — Sarah (Isobel Eadie) — para um passeio, acaba conhecendo a futura esposa ainda muito jovem e literalmente vestida como a força da natureza que era. Emma Corrin consegue representar a aura de ternura, brilho e amor pela vida de que Lady Di gozava.

E, mais feminista do que qualquer outra temporada, esta quarta nos introduz à terceira peça fundamental da narrativa — a primeira mulher a ser Primeira-Ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher (Gillian Anderson). Se havia alguém capaz de trazer humanidade e complexidade a uma das personagens mais controversas da política do século XX, esse alguém era Gillian — também conhecida por seu primoroso trabalho em Sex Education e X-Files É impossível não lembrar da atuação memorável de Meryl Streep em A Dama de Ferro, mas se o enfoque do longa-metragem era uma Thatcher mais velha, em The Crown o centro da representação é justamente seu papel político. 


Com um roteiro extremamente bem amarrado e metáforas visuais amparadas de uma edição precisa, a temporada consegue se superar e ser a melhor até o momento. O único ponto em que peca é no arco dramático de Lady Di, o qual, em contraponto a todos os outros até o momento, é tratado de forma simplista, apresentando uma personagem completamente plana e reduzida à esposa traída de um príncipe egoísta, explosivo e manipulador que prova que às vezes a melhor escolha é o sapo.


Apresentado pela irmã o fato de a família se referir à Di como “duquesa”, visto que esta sempre apresentou potencial para coisas grandiosas, a série falhou em mostrar esse potencial. Como o cartaz dá a entender e a série não entregou completamente, ela era a mudança que viria para desafiar a tradição. Primeiro por se recusar a jurar obediência ao marido no altar; falar abertamente de seus distúrbios alimentares — ajudando a alertar as pessoas sobre a gravidade do assunto —; apoiar centenas de instituições de caridade — entre as quais campanhas para banir minas terrestres e uma visita organizada por ela a um centro de tratamento para pacientes com HIV, muito marginalizados na época, ajudando a desmistificar tabus sobre a doença —; leiloar peças de seu guarda-roupa para arrecadar fundos para as instituições Royal Marsden Hospital Cancer Fund e AIDS Crisis Trust; e literalmente ser a Princesa do Povo, por se empatizar com eles e conversar abertamente, responder cartas e abraçar a todos.


A chance que a Netflix tinha de trazer a personagem mais carismática e querida da história da coroa para um nível mais próximo ficou só na promessa, deixando no nível superficial de mostrar a vida solitária e completamente infeliz a que o marido a submetia, se irritando com qualquer respiração que ela desse. Quem sabe em uma próxima temporada?

Nota: 9,5

Léo Costa 


The Crown é a melhor série da Netflix e cresce a cada temporada. Nesta 4°, a produção dá passos que ainda faltavam nas anteriores, cutucando bem a fundo as feridas da monarquia, em um ciclo mais sombrio, complexo e triste do que os anteriores, sem perder a qualidade. Na verdade, a obra cada vez mais aumenta seu potencial. Com desempenho de elenco perfeito, na verdade é uma aula de atuação e roteiro.  O texto brilhantemente escrito traz todo vazio, peso e cinzas da coroa, da monarquia conservadora e de tudo que a envolve. Se outrora a felicidade da rainha, seu marido e sua irmã foi negada, e após isso foi negado a seus filhos, agora seu filho Charles passa essa infelicidade adiante, para sua esposa, princesa Diana. 

O elenco feminino sempre foi destaque e se antes a Rainha e sua irmã brilhavam, nesta temporada temos no centro a dura Margaret Thatcher e a radiante princesa Diana. Thatcher é muito bem representada por Gillian Anderson (a eterna Scully de Arquivo-X), ela consegue passar a frieza da 1° mulher primeiro-ministro do Reino Unido, conservadora e polêmica, mas que também tinha seus desafios por ser uma mulher política pioneira, em um cenário totalmente masculino.

Já a novata Emma Corrin entrega uma Diana sonhadora e alegre, que aos poucos perde seu brilho diante toda fachada, limitação e podridão da família real. É impressionante a riqueza de detalhes do roteiro e direção, muitas vezes sem diálogos, apenas com ângulos de câmera, nos passando a solidão dos personagens centrais. Em determinadas situações, eles são enquadrados na câmera sempre isolados, tristes e com semblantes caídos, ressentidos, sempre solitários no próprio amargor. 

A burguesia fede e The Crown cada vez mais explora isso sem perder a classe, com um visual lindo, trilha sonora épica, um roteiro bem amarrado nos mínimos detalhes e atuações arrebatadoras. Apenas o arco de Lady Di já é de partir o coração. A série deve vir forte nas premiações e a 5° temporada promete ser ainda mais emocionante. Obra-prima, joia da coroa da Netflix, melhor obra audiovisual que assisti em 2020 até então. 

Nota: 10


Ettore Migliorança

Essa produção da Netflix sempre foi a que desafia aquilo que se conhece da família real e da atual rainha da Inglaterra, Elizabeth II, sempre demonstrada na mídia ou nos livros de histórias como uma monarquia estável e firme em pleno século XXI; mas a trajetória que se firmou em sua narrativa é um retrato realista, sombrio e deveras angustiante em alguns momentos.

Não tendo medo de mostrar as polêmicas, os conflitos, as vergonhas e a podridão por trás da bela Coroa da Inglaterra, sua nova temporada é um avanço significativo e brilhante de como a série cria a atmosfera tensa e conflituosa da Rainha em embate dos surgimentos das figuras famosas da história da Inglaterra, como a Dama de Ferro, Margaret Thatcher (Gillian Anderson), e a bela e trágica Lady Diana (Emma Corrin).
Em seu roteiro envolvente com diálogos pesados, vamos nos embreando nas polêmicas evolvendo o governo de Thatcher e os desgastes psicológicos da carismática Lady Di. A série alcança novas áreas ao entrelaçar essas tramas para destrinchar a família real, vilanizando com profundidade e contexto o príncipe Charles e elevando o drama do real significado da figura da rainha Elizabeth perante seu povo — que ela transmite em sua figura —, o seriado histórico é mais do que apenas “mais uma obra com essa temática”, é uma série que entrelaça brilhantemente a História e a Arte para todos.


Nota: 10
Nota Geral:

Título Original: The Crown

Direção: Stephen Daldry 

Episódios: 10

Duração: 54 minutos aproximadamente

Elenco: Olivia Colman, Emma Corrin, Gillian Anderson, Tobias Menzies, Marion Bailey, Helena Bonham Carter, Erin Doherty, Josh O’Connor, Emerald Fennell, Stephen Boxer, Charles Dance, Angus Imrie e Tom Byrne

Sinopse: Passando pela primeira mulher Primeira-Ministra do Reino Unido e sua relação com a rainha Elizabeth II, o relacionamento de Charles com Lady Diana e os conflitos entre Inglaterra e Irlanda, essa nova temporada promete ser explosiva. 
Trailer:


Vossas Majestades, o que acharam da série? Deixem aí embaixo nos comentários, junto com os desejos para a próxima temporada! 👸

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