Especial: As categorias do Oscar – Parte 2 (Figurino, Maquiagem e Cabelo, Design de Produção e Som)

Já pensou quantas você deve ter olhado pra lista das
categorias do Oscar e pensado que algumas delas são mais um prêmio de decoração
do que um de “verdade” mesmo? Para alguém que está acostumado com o cinema,
esse certamente é um pensamento um pouco ofensivo, mas, por incrível que
pareça, o público geral inconscientemente subestima categorias como Figurino ou
Maquiagem e Cabelo. Essas, dentre outras, apesar de ficarem por último em meio
à empolgação de falar dos atores e dos filmes, são igualmente importantes numa
obra cinematográfica. Elas fazem parte de um contexto maior que está
diretamente ligado à concepção artística de um filme e envolvem um trabalho
cuidadoso e, mais importante, formam elementos que influenciam o tempo todo no
contar da história. Mesmo que você não pense nelas ativamente o tempo todo,
elas estão ali sempre contribuindo para a narrativa.


Continuando o especial iniciado anteriormente, hoje eu
peço que me acompanhe numa breve análise das categorias que são responsáveis
pela caracterização do ambiente e dos atores. Posteriormente, vamos falar da do
papel do som nos filmes, embarcando os prêmios das trilhas e do som
propriamente dito.

Jenny Beavan e seu oscar pelo figurino de Mad Max – A Estrada da Fúria (George Miller, de 2015)

A mise-en-scène

Quando você vê um filme, pare para pensar que está vendo uma
reprodução de 24 fotogramas por segundo. Significa que cada fotograma desse é
um quadro delimitado pela razão de aspecto (a proporção das dimensões do
quadro). Quando pensamos na palavra “quadro”, imaginamos literalmente um
quadrado, ou um retângulo, que contém uma imagem. O filme que você vê é uma
grande quantidade dessas imagens e cada uma delas tem uma composição. Tudo que
compõe esse quadro tem origem no meio como
foi capturado, no caso a câmera, que é a ferramenta da cinematografia
(fotografia para o cinema), da qual falarei em outra matéria; e na composição
dos elementos que serviram de objeto
para a câmera. Esses elementos são o cenário, o figurino e maquiagem
(caracterização dos personagens), a iluminação e a encenação (a atuação e
posicionamento dos atores). À organização desses elementos no quadro se dá o
nome de “mise-en-scène”, termo francês que significa “colocar em cena”.

O Design de Produção

No Oscar, anteriormente era chamado de Direção de Arte.
Atualmente o termo Design de Produção abarca a organização do cenário, dos
objetos e da iluminação. É basicamente o aspecto visual físico que você vê
compondo as cenas de um filme.
Quando pensamos em qual tipo de cenário nos chama mais a atenção, é inevitável que primeiro nos
lembremos daqueles que são grandiosos e chamativos. Eles são mais marcantes e
tendem a ser fundamentais em filmes que tem uma temática de fantasia e ficção
científica. Realmente pode-se dizer que os profissionais de produção de Star Wars – O Despertar da Força (J.J. Abrams, de 2015)  tiveram muito mais
trabalho braçal do que os de Deus da
Carnificina
(Roman Polanski, de 2011), que se passa inteiramente dentro de um apartamento. Porém,
julgar a importância desses cenários é muito mais do que apenas achá-los impressionantes
esteticamente, é também entender que eles servem à narrativa, o que significa
que eles refletem o tom do filme e os personagens, servindo ao processo de
contar a história. Lembrem-se, produzir um filme é um grande gasto de tempo, e
gastar tempo significa sempre gastar dinheiro. Cada dia que um cineasta passa
no set e tudo que se gasta tempo e recurso não pode ser jogado fora. Isso
implica diretamente na arte e resulta que nada no filme é desprovido totalmente
de motivo, incluindo todos os aspectos do cenário.

A importância do cenário já pode ser vista lá na época do
cinema mudo, por exemplo, no Expressionismo
Alemão
: movimento cinematográfico que prezava a representação de temas e
emoções hiperbólicas refletidos em seu estilo. O movimento influenciou definitivamente a
história do cinema, da estética do film noir americano até os filmes de terror.

Exemplo mais comum no clássico O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, de 1920), grande expoente do cinema mudo e do expressionismo. O ambiente exageradamente retorcido retrata a inquietação psicológica e emocional do personagem.
Os profissionais do Design de Produção trabalham para tornar
possível a visão do realizador. Tim Burton é um diretor conhecido pelo senso
estético de seus filmes e foi bastante influenciado pela vanguarda alemã. Em
Edward, Mãos de Tesoura (Tim Burton, de 1990), os cenários refletem diretamente as características
dos núcleos de personagens:

As pequenas casas organizadas em blocos, próximas umas das outras lembrando uma maquete, refletem um bairro cheio de vizinhos fofoqueiros e artificiais.
O castelo de Edward deixa clara, nos contornos retorcidos e formas irregulares, a influência do expressionismo no Design de Produção.
Como dito, a importância não se limita ao quanto o cenário é
chamativo. Em filmes que tem uma estética mais realista e contemporânea, o cuidado com o cenário é o mesmo. A próxima vez que for ver um filme, note como a decoração do ambiente reflete o personagem.

A iluminação é igualmente crucial para a composição de um
quadro. Na produção de um filme, não é só ligar a câmera e sair filmando. A
captação da imagem muda bastante e é muito sensível às mudanças. Quase tudo que
você vê num filme de grande produção foi realizado com uma fonte de luz que “simula”
a realidade. Mesmo aquelas tomadas externas, onde parece que a luz é
simplesmente natural, na verdade existe outra fonte que ajuda na composição exata
que o diretor deseja para a cena. Existem filmes que ficaram famosos por filmar
grande parte em luz natural, como Barry Lyndon (Stanley Kubrick, de 1975) e O Regresso (Alejandro G. Iñarritu, de 2015), mas são mais raros
e é um trabalho muito mais difícil para o Diretor de Fotografia. Portanto, a
luz é elemento fundamental da mise-em-scène, ajudando a esculpir a visão da
cena. Ela tem a capacidade de direcionar nosso olhar e criar contrastes que nos
ajudam a interpretar a narrativa através do estilo.

Iluminação em Low Key numa cena de O Grande Golpe (Stanley Kubrick, de 1956), a fonte de iluminação acima da mesa cria um alto contraste entre luz e sombras, ajudando na atmosfera da narrativa. Estilo famoso no film noir americano. 
O figurino e
maquiagem

Da mesma maneira que os objetos e o cenário, o figurino e a
maquiagem agem diretamente na caracterização de um personagem. São ferramentas
indispensáveis que auxiliam muito a narrativa a depender mais do visual do que
da exposição. As roupas em um filme podem seguir quaisquer lógicas nas quais o
cineasta quer se basear. Mesmo que num contexto fantasioso, o figurino está ali
sempre trabalhando em prol da caracterização. Em O Senhor dos Anéis – A Sociedade
do Anel
(Peter Jackson, de 2001), a vestimenta do mago Saruman é limpa, bem cuidada e elegante, o que é
relativo aos seus modos mais orgulhosos; enquanto que Gandalf se veste mais
como um maltrapilho, porém com sua sabedoria mais doce e honesta. Existe uma
lógica nessas escolhas que vai sendo moldada durante o filme. Note que quando
Gandalf se transforma em O Branco, a partir do segundo filme, sua roupa também
passa a ser bem mais vistosa e elegante, só o que significado não é o mesmo que
tinha a de Saruman, mostrando que a intenção do figurino não é uma regra, e sim
um valor que vai sendo atribuído de acordo com a necessidade da narrativa.
Outro caso exemplar do uso do figurino são as mudanças nas
roupas de Kay Corleone, em O Poderoso Chefão (Francis F. Coppola, de 1972). No início da história, suas
roupas apresentam cores vivas e vibrantes, o que fica bem de acordo com
sua personalidade. Com o passar o tempo e com os negócios tenebrosos da família
de Michael cada vez mais “sugando” a felicidade de Kay, suas roupas claramente
perdem a cor.


O figurino, portanto, assim como o cenário, não se define só
pela sua beleza estética, e sim pela sua função na narrativa, mesmo que numa
representação bastante naturalista. Note que nos filmes que você vê, quando um
personagem aparece impecavelmente vestido, já é possível traçar algumas
características de sua personalidade antes mesmo que tenhamos nenhuma
explicação, principalmente quando há um contraste com outro personagem que se
veste  de maneira totalmente diferente. O contraste no cinema diz muita coisa, em
quaisquer de seus aspectos!

A maquiagem é elemento presente no cinema desde cedo. Ela
também pode apresentar contornos mais intensos e expressivos, principalmente em
filmes que tem personagens não humanos que necessitam ser bem diferentes, ou em
filmes de guerra e de terror. Os efeitos práticos e maquiagem de Enigma de
Outro Mundo
(John Carpenter, de 1982) são reverenciados até hoje. Ela também é importante quando é
praticamente invisível aos nossos olhos e quando é produto de um trabalho que
pretende não chamar a atenção para si mesmo, mas sim para a narrativa.
Novamente em O Poderoso Chefão, a maquiagem transforma Marlon Brando num senhor
quando tinha apenas 45 anos na época.     


A movimentação dos atores também é parte integrante da mise-em-scène.
De qualquer forma, eles também são objetos em cena. O local onde se encontram
e principalmente a dinâmica de sua movimentação contribuem bastante para a
composição dos quadros. Repare que num filme, sempre há uma relação de dominância
e igualdade que é estabelecida de acordo com a posição dos atores. Um exemplo
clássico é em 12 Homens e Uma Sentença (Sidney Lumet, de 1957):

A posição relativa dos personagens, depois da explosão emocional de um deles, revela muito sobre eles de acordo com suas reações.
Como vimos, os prêmios de Melhor Figurino, Melhor Maquiagem
e Cabelo e Melhor Design de Produção premiam aspectos essenciais em um filme e
acabam sendo subvalorizados pelo espectador. São aspectos que não chamam a
atenção o tempo todo, mas estão sempre ali trabalhando no nosso inconsciente.

O Som, as Trilhas e
as Canções

Quando vemos um filme, nossa percepção do som é um pouco
parecida com a da vida real. Enquanto você vive sua rotina, os sons do
ambiente, aqueles que se repetem todos os dias, já estão inseridos
automaticamente nos seus sentidos. Você não pensa conscientemente neles em si,
apenas responde a eles de maneira usual. Se caso ocorrer um som abrupto, ou um
silêncio repentino, aí sim você se dá conta da existência e das propriedades
desse som. Num filme é assim também, com a grande diferença que todos os
ruídos, silêncios e trilhas foram construídos e pensados para cada momento da
narrativa.
A ambientação sonora de um filme é quase sempre
captada e manipulada separadamente da imagem. Grande parte dos diálogos e sons
de uma cena foram refeitos e até totalmente criados depois. Esse aspecto faz
com as diversas trilhas de áudios de um filme tenham a possibilidade de serem
manipuladas de várias maneiras possíveis de acordo com o seu papel narrativo
pretendido pelo diretor.

A Edição de Som

Numa produção cinematográfica, existe uma grande equipe de
profissionais que é responsável por toda a captação dos sons que serão
utilizados em um filme. Quando você pensar em edição de som, pense em captação e criação de sons, até porque a Academia considera o prêmio também
para o design de som. As características e a forma do que você está ouvindo resultam do
 trabalho do supervisor de som.
Pra você ter uma ideia, quando você vê pessoas correndo num
ambiente qualquer de um filme, o barulho dos passos provavelmente foi gravado
separadamente, dependendo das condições da filmagem. Outra situação é o exemplo clássico dos
rugidos dos dinossauros em Parque Dos Dinossauros (Steven Spielberg, de 1994). O resultado que você ouve na tela vem
de diversas gravações de animais reais (cachorros, burros e porcos), que foram
misturados e editados para criar um som característico pretendido pelo
cineasta. O exemplo abaixo mostra o design de som de Avatar (James Cameron, de 2009):


A Mixagem de Som

Quando as gravações terminam, o filme parte para a pós-produção,
quando será montado e os sons mixados. Nessa fase, os profissionais da mixagem
têm o dever de sincronizar todo o material gravado com as imagens, regular
alturas, timbres e frequências. É um trabalho fundamental porque é aí que o
diretor tem sua visão concretizada de como esses sons funcionarão na narrativa.
A maneira como você ouve o som só
acontece porque o diretor e os mixadores quiseram assim. Num diálogo entre duas
pessoas que estão na calçada de uma rua movimentada de Nova Iorque, você ouve
claramente o som da voz enquanto o barulho dos carros foi levemente diminuído.
A mixagem exerce funções dramáticas incríveis em um filme. Citando novamente O
Poderoso Chefão
, quando Michael está prestes a atirar em um inimigo numa mesa
de jantar, um som de um trem vai gradativamente aumentando ressaltando a
crescente tensão do personagem. No recente drama nacional Redemoinho (José Villamarim, de 2017), uma cena
importante acontece ao mesmo tempo em que um trem passa num local A. Logo
depois, outra cena acontece num local B próximo. No momento pretendido pela
mixagem, ouvimos o barulho do trem passando perto de B, sem que seja preciso mostrá-lo. Sabemos, portanto, que o evento ocorrido em A aconteceu logo antes, o que traz
implicações diretas na história, criando uma continuidade através do som.
A Trilha Sonora

A trilha sonora é uma composição musical feita com o
propósito de servir como elemento narrativo de um filme. Ela serve para pontuar
e ressaltar momentos específicos da história. Várias vezes não percebemos como
essas trilhas nos fazem sentir o que sentimos numa determinada sequência.
Inúmeras passagens icônicas do cinema seriam totalmente diferentes se a trilha
fosse removida, ou se fosse usada outra diferente. Porém, a trilha sonora é um
aspecto que tem de ser usado com inteligência para que ela trabalhe para o
espectador, e não o contrário. Significa que a boa trilha é aquele que acompanha o espectador e o ajuda a absorver
a emoção requerida pela cena. O contrário pode acontecer quando, por exemplo, Cavalo de Guerra (Steven Spielberg, de 2011), foi criticado por transformar a trilha do filme
num elemento maniqueísta e manipulador, isto é, ela incessantemente insistia como e quando o espectador deveria se emocionar. 

Algumas trilhas ultrapassaram a barreira das 2 horas de projeção
e se tornaram verdadeiros ícones do cinema. Particularmente, compartilho a minha
favorita aqui, a de Forrest Gump (Robert Zemeckis, de 1994), de Alan Silvestri:


Canção Original

É o formato mais conhecido quando pensamos em uma música com
melodia e letra. As regras da Academia dizem que ela tem que ser composta para
um filme. Portanto, um cineasta pode utilizar a música que quiser em seu filme,
mas ela só pode concorrer ao prêmio se foi feita especificamente para ele. Uma
de minhas favoritas é Falling Slowly, do filme Apenas Uma Vez (John Carney, de 2006), que venceu o Oscar em 2008:


Viu como é importante nos lembrarmos dessas categorias
esquecidas na hora de falar sobre o Oscar? São prêmios que reconhecem os
trabalhos essenciais dos profissionais que contribuem imensamente para o seu
filme favorito. Na parte 3, iremos abordar as duas gigantes técnicas que são
responsáveis por dar forma e estilo aos filmes que você assiste: a Montagem e a
Fotografia.



* Fundamentação em A Arte do Cinema (Bordwell & Thompsom) e Como Ver Um Filme (Ana Maria Bahiana).
Está curtindo as matérias especiais do Oscar? Comente abaixo e obrigado pela leitura.

Deixe uma resposta