UM OLHAR PARA O CINEMA ESTRANGEIRO: “ADEUS, MINHA RAINHA”

(Crítica publicada por “Anjo da Guarda”, com seu nome original, no caderno de Cinema da Rede Bom Dia de jornalismo, edição de Itatiba, São Paulo)
“Curiosa visão tende a mostrar rainha com inclinação lésbica e mostra também bastidores do palácio em noite fatídica.”
A revolução francesa é um assunto
pertinente ao Cinema, vários filmes já a retrataram e de inúmeros jeitos. Sem
sombra de dúvida o personagem da famosa “Queda da Bastilha”, como é chamada a
revolução, que mais desperta o gosto de todos é a rainha Maria Antonieta,
austríaca que se casou com Luis XVI, com a esperança de unir inimigos
históricos. A rainha, que fora odiada pelo povo e que conquista até hoje os
historiadores, já ganhara espaço no Cinema. Uma das últimas adaptações cinematográficas
de sua vida fizera enorme sucesso, o filme “MARIA ANTONIETA” de Sofia Coppola,
pelo sim e pelo não, pois foi alvo de todos os tipos de críticas, negativas e
positivas, é considerado uma versão um tanto definitiva para o Cinema sobre a
vida da rainha. Em 2012 o cineasta francês Benoît Jacquot abriu o festival de
Berlim com este filme “ADEUS, MINHA RAINHA”, que curiosamente trouxe uma visão
inusitada e muito particular envolvendo Maria Antonieta. O filme foi bem
recebido pela crítica e trilhou um caminho de méritos; em 2013 foi um dos
grandes recordistas de indicações ao prêmio “Cesar”, o Oscar francês, ao lado
de grandes filmes como “AMOR” (de Michael Haneke, vencedor do Oscar 2013 como
melhor filme estrangeiro) e “CAMILLE OUTRA VEZ” (de Noémie Lvovsky, que curiosamente faz parte do elenco deste filme). O filme
foi vencedor de três prêmios.
E o que desperta a curiosidade
para este filme? O fato de que aqui Maria Antonieta sentia uma atração lésbica.
O diretor Benoît Jacquot faz uma adaptação do livro da historiadora francesa Chantal
Thomas, que mostra os últimos quatro dias da corte de Luis XVI, sob a visão da criadagem
de Versalhes. Em especial o filme acompanha a personagem Sidonie (interpretada
pela excelente atriz Léa Seydoux), a leitora oficial de Maria Antonieta (interpretada
concisamente pela também sempre excelente Diane Kruger), era ela quem lia os
livros para a rainha, já que a mesma, como “reza” sua fama, era uma rainha que
não gostava de ler. O interessante é que Sidonie nutria uma admiração hipnótica
pela rainha, muito presente na brilhante sequência inicial do filme, em que a
personagem entra no quarto da rainha com todo o respeito e reverência,
esquivando-se de olhar bruscamente para ela e, após levantar a cabeça, atenta
as coordenadas de Maria Antonieta, seus olhos parecem brilhar e sua face como
que resplandece diante da alteza. Pois bem, naquele mesmo dia, 14 de julho 1789, iniciara-se a tomada da bastilha e
uma lista com os nomes de todos que teriam sua cabeça decapitada surgiu pelos
corredores internos de Versalhes.  Quando
Sidonie tem acesso há uma dessas listas depara-se com o fato de que o nome da
rainha é o primeiro e assim sua admiração transforma-se em tensão, que se
estenderá pelos próximos três dias até o clímax do filme.

Esse é o mote com o qual a
direção de Benoît se apoia, num roteiro tomado pela apreensão e certa tensão,
presentes durante o filme. Você percebe que o pior está por vir e que atitudes
serão tomadas, de maneira que o espectador vai se surpreendendo, criando uma
espera. Pode ser aí que esteja talvez uma falha do roteiro, que parece criar
expectativa demais pra pouca revelação. Ainda assim a própria personagem de
Sidonie surpreende ao espectador construindo uma forma de estar sempre próxima
do que está acontecendo com a rainha. Mas a grande surpresa é reservada a
insinuação lésbica, a rainha recebe a visita de sua única amiga íntima, Gabrielle
de Polignac (vivida pela atriz Virginie Ledoyen), visita que é regada com um
carinho demasiadamente íntimo demais, que pode ser o resultado das últimas
angústias da rainha ou mesmo pelo afeto amoroso. E é por isso que “ADEUS, MINHA
RAINHA” vale à pena, pela ligação das  personagens com Maria Antonieta, pois ao contrário do que se possa imaginar, este não é um filme focado na pessoa da rainha, mas nas ligações com ela; também chama a atenção essa visão de
admiração de Sidonie, que será responsável por um desfecho muito interessante, o que elucidará ainda mais o título do filme. Aliás, o final do filme já é um dos melhores finais cinematográficos de 2013.
Enfim, “ADEUS, MINHA RAINHA” é um
filme que vale a pena, com interpretações bem construídas, além de ser
realmente muito interessante. Vale lembrar que o diretor usou elementos
surrealistas, o que deixou a história mais apreensiva, são cortes de câmera,
movimentos rápidos, surgimentos de certos “surtos” de Sidonie, como, por
exemplo, sua aflição por ratos que a fazem imaginar alguém a surpreendendo com
o bicho. Assistir os acontecimentos pelos corredores íntimos de Versalhes é
saboroso demais, ouvir aquilo que era sussurrado entre a criadagem sobre a
rainha, aqui retratada tão excêntrica e tão “bipolar”, mas também tão humana
diante do que estava prestes a acontecer. E outro fato que chama a atenção é de
que a atriz principal Léa Seydoux, seja também a atriz principal do grande
vencedor do festival de Cannes 2013, o filme “LA VIE D’ADELE”, que por muito
pouco, não venceu o prêmio de melhor atriz da edição do festival. Assim
esperamos que todos assistam “ADEUS, MINHA RAINHA”.

NOTA: 8


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