Os filmes essenciais de Fellini


Matéria elaborada pelo colaborador Luis Schuh Bocatios

Nascido em 20 de Janeiro de 1920 na cidade de Rimini, na
Itália, Federico Fellini é considerado um dos melhores e mais influentes
cineastas da história do cinema. É o maior vencedor da história da categoria de
Melhor Filme Estrangeiro no Oscar, tendo vencido o prêmio quatro vezes. Além
disso, também foi indicado quatro vezes ao Oscar de Melhor Direção e oito vezes
aos prêmios de roteiro do prêmio da Academia, sendo sete para Melhor Roteiro
Original e uma para Melhor Roteiro Adaptado. Dentre outros prêmios de destaque
recebidos pelo diretor, estão o BAFTA de Melhor Filme, a Palma de Ouro em
Cannes, o Leão de Prata no Festival de Veneza (duas vezes), e o Grand Prix do
Festival de Moscou.
 

O início da carreira de Fellini é bastante vinculado ao neorrealismo
italiano, mais especificamente ao trabalho do diretor Roberto Rossellini, tendo
co-escrito os dois filmes mais importantes da carreira de Rossellini: Roma,
Cidade Aberta
, de 1945, e Paisà, de 1946.
 

Em 1950, dirigiu Mulheres e Luzes, em parceria com Alberto
Lattuada. O filme marca o início de sua parceria em tela com a atriz Giuletta
Masina, com quem foi casado de 1940 até o dia de sua morte, em 1993. O primeiro
filme que dirigiu sozinho foi Abismo de um Sonho, de 1952, que, por sua vez,
marca o início de outra parceria importantíssima de Fellini, com o compositor
Nino Rota, que fez a trilha de todos os filmes do diretor até sua morte, em
1979, além de outras trilhas notáveis, como a da trilogia O Poderoso Chefão e
do filme O Leopardo, de 1963, entre outras.
 

Foi com Os Boas-vidas, de 1953, que o diretor começou a
ter fama internacional, tendo recebido seu primeiro Leão de Prata (prêmio de
Melhor Direção no Festival de Veneza) e sua segunda indicação ao Oscar de
Melhor Roteiro Original, pois o filme apenas se tornou elegível ao Oscar em
1958, enquanto seu filme posterior, A Estrada da Vida, foi indicado ao prêmio
em 1957. Daí em diante, Fellini se tornou um diretor mundialmente conhecido, e
hoje em dia é considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos. Este
texto apresentará alguns dos cinco melhores e mais importantes filmes do
diretor, em ordem cronológica.

 

A Estrada da Vida (La
Strada, 1954)

 Lançado em 1954, La Strada parece ser o filme
aonde Fellini encontrou, de fato, sua voz como cineasta – pelo menos na fase
inicial de sua carreira. Nele, acompanhamos a história de Gelsomina – Giulietta
Masina – uma moça que é vendida por sua mãe para um lutador – Anthony Quinn – e
passa a acompanhá-lo em suas viagens. Com uma performance brilhante de Masina –
bastante inspirada pelo Vagabundo, de Chaplin – La Strada é uma grande
demonstração do interesse do diretor por pessoas e situações comuns, mas ao
mesmo tempo muito particulares e únicas. É o primeiro filme do diretor que faz
as situações corriqueiras e realistas parecerem algo tão fantasioso, que busca
achar a beleza e compaixão em um ambiente tão grotesco, pois, mesmo que Os
Boas-vidas
apresentasse a pretensão de algo parecido em seu roteiro, a
encenação de Fellini ainda não executava essa ideia tão bem quanto em A
Estrada da Vida
. É o filme que deu início ao uso do termo “felliniesque”,
utilizado por críticos e fãs do diretor para descrever aquela maneira tão
particular de cinema feito por Fellini.

 Foi o primeiro filme a vencer o Oscar de Melhor
Filme Estrangeiro como conhecemos hoje em dia; nos primeiros anos do Oscar,
essa categoria não existia, até que, em 1948, foi criado um prêmio honorário
que era entregue para um filme de fora dos EUA por ano – em 1957, a categoria
passou a ter cinco indicados, e, já nesse ano, Fellini levou a estatueta para
casa, fato que se repetiria mais três vezes, incluindo no ano seguinte.

 

Noites de Cabíria
(Notti di Cabiria, 1957)



 

Em Noites de Cabíria, chegamos ao ápice da
parceria entre Fellini e Giulietta Masina. Em um dos mais belos filmes do
cinema, o diretor pinta um retrato sensível e afetuoso de Cabiria, uma mulher
ingênua e irremediavelmente otimista, que faz de tudo para encontrar a
felicidade e o amor verdadeiro. Em mais uma performance inspirada pelo
vagabundo de Chaplin, Masina – que foi premiada com o prêmio de Melhor Atriz no
Festival de Cannes por esta obra – brilha e entrega a melhor performance de sua
carreira, e uma das melhores da história do cinema.

 Com um roteiro que conta com a colaboração de
Pier Paolo Pasolini – outro grande diretor do cinema italiano e responsável por
grandes filmes, como Salò ou Os 120 Dias de Sodoma e Teorema – o filme
conta com uma das trilhas sonoras mais inspiradas de Nino Rota e tem um dos
finais mais belos que o cinema já viu.

 Misturando um estilo lúdico de cinema com fortes
resquícios do neorrealismo italiano, Noites de Cabíria é um dos representantes
mais significativos da filmografia de Fellini e seu estilo cinematográfico, e,
sem dúvida nenhuma, um de seus melhores e mais indispensáveis filmes.

  

A Doce Vida (La Dolce
Vita, 1960)
 

 

 

Considerado o filme mais famoso de Fellini, La
Dolce Vita
é, também, o mais controverso da filmografia do diretor. Marcando a
estreia da parceria entre o cineasta e o astro Marcello Mastroianni, o filme,
outro roteiro co-escrito por Pasolini, acompanha o jornalista Marcello Rubini –
Mastroianni – em seus dias e noites explorando a cidade de Roma e procurando
algo que possa curar o vazio que sente.

 Com seu protagonista moralmente questionável e
seus temas não-convencionais para a época em que foi lançado, o filme causou um
escândalo com seu lançamento, tendo sido publicamente condenado pela Igreja
Católica e sofrido boicote por parte de uma parcela mais conservadora da
sociedade.
 

Em contrapartida, foi um enorme sucesso de
crítica, público – é o filme italiano mais visto de todos os tempos – e
premiações – venceu a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado a 4 categorias do
Oscar: Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Filme Estrangeiro e
Melhor Figurino, tendo vencido a última categoria.
 

Frequentemente inserido em listas de melhores
filmes de todos os tempos, La Dolce Vita é um dos filmes mais influentes e
icônicos de todos os tempos, e uma experiência indispensável para os amantes do
cinema.

 

8 ½ (Otto e Mezzo,
1963)

 



 Em 1963, Fellini chega ao filme considerado como
sua obra-prima pela maioria de seus admiradores – inclusive este que vos
escreve. Concebido enquanto o diretor enfrentava uma crise criativa, 8 ½ acompanha o cineasta Guido Anselmi – Mastroianni – enquanto ele enfrenta sua
própria crise criativa.

 Navegando pelos sonhos, memórias e angústias do
protagonista de um jeito nunca antes visto, com movimentos de câmera e misé-en-scene
completamente particulares e inovadores, o filme é um dos mais importantes e influentes
de todos os tempos, tendo sido citado como uma grande inspiração e um dos
filmes favoritos de cineastas como Martin Scorsese, David Lynch, Terry Gilliam
e William Friedkin, entre outros. Além do mais, o filme é frequentemente
referenciado em outras obras, como os filmes Pulp Fiction, Brazil, Birdman, A Vida é Bela e o clipe da música Everybody Hurts, da banda REM.

 Desde 1952, a revista Sight & Sound compila,
uma vez por década, uma lista dos melhores filmes de todos os tempos, após
pedir para críticos, produtores e diretores de cinema renomados enviarem suas
listas de filmes favoritos. Em 1972, a primeira lista que foi feita após o
lançamento de 8 ½, o filme atingiu sua colocação mais alta: quarto lugar. Em
1982, apareceu no quinto lugar, enquanto a lista de 1992 foi a única que deixou
a obra de Fellini fora de seu top 10, mas ele voltou em 2002, ocupando o nono
lugar, e, em 2012, foi o décimo escolhido.

 Em 1992, a revista passou a divulgar a lista
apenas dos diretores, da qual o filme nunca deixou de participar, tendo ocupado
o segundo lugar logo de cara. Em 2002, ele ocupou a terceira colocação, e em
2012 desceu mais uma posição. A próxima lista da Sight & Sound será
divulgada em 2022.

 Foi o vencedor dos prêmios de Melhor Filme
Estrangeiro e Melhor Figurino – Preto & Branco no Oscar, além de ter sido
indicado às categorias de Melhor Direção, Melhor Roteiro Original e Melhor
Direção de Arte – Preto & Branco. Também foi indicado ao BAFTA de Melhor
Filme e venceu o Grand Prix do Festival de Moscou.

 Com um legado e uma influência incomensuráveis, 8 ½ é um daqueles clássicos obrigatórios para qualquer cinéfilo.

 

Amarcord (1973)

 

 

Como tantos outros diretores já fizeram ou virão
a fazer, em Amarcord, Fellini revisita sua infância e adolescência em Rimini
nas décadas de 1920 e 1930. Como de costume em sua filmografia, o diretor não
busca contar uma história com uma narrativa tradicional, e sim pintar um
retrato cheio de afeto de como era a vida, especialmente da juventude, na
Itália nos anos 30, em meio ao poder fascista, focando em intrigas familiares,
brincadeiras de estudantes em sala de aula e na sexualidade aflorando em
adolescentes.

 Tendo influenciado inúmeros filmes e diretores,
como Roma, de Alfonso Cuaron, A Era do Rádio, de Woody Allen e Crooklyn,
de Spike Lee, Amarcord marca um dos últimos momentos de altíssima relevância
internacional de Fellini, tendo gerado sua última vitória no Oscar de Melhor
Filme Estrangeiro e última indicação ao prêmio de Melhor Direção.
 

Se for possível, é altamente recomendável que
assista a todos os filmes de Federico Fellini, que tem outros filmes muito bons
além dos citados nesta matéria – como Os boas-vidas, Roma,  Ensaio de Orquestra, A Voz da Lua, entre
outros. São esses cinco, no entanto, que costumam ser considerados como os mais
essenciais de sua brilhante filmografia.


Conhece as obras de Fellini? 


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