Especial: As categorias do Oscar – Parte 1 (Os roteiros)

Mais uma edição da premiação mais badalada do mundo
cinematográfico está chegando e com ela vem aquela vontade dos cinéfilos em
acompanhar tudo, dar seus palpites e destrinchar o filme a partir das
categorias principais e técnicas do Oscar. É um exercício desafiador, mas
também prazeroso porque permite que possamos entender como as peças em uma obra
cinematográfica se juntam para nos entregar aquela experiência de breves 2 horas.

Até o dia da cerimônia, que ocorrerá no próximo dia 26, o Minha Visão do Cinema trará
três matérias acerca de algumas categorias que despertam a curiosidade do
público geral pelo fato de não ser muito claro o que significam. Quem gosta de
filmes geralmente palpita com entusiasmo sobre as categorias de atuação, Melhor
Filme e até Diretor, mas aquelas que tratam de Fotografia, Montagem, Figurino,
Edição e Mixagem de Som, entre outras, costumam passar em branco ou ficam
naquela de “eu palpito, mas não tenho certeza do que é”. Não é necessário ser
um especialista em cinema para entender os princípios básicos a que se referem
essas categorias e isto é ótimo para o leitor, que terá uma visão um pouquinho
maior sobre as partes que compõe seu filme favorito.



No Oscar

Spike Jonze recebendo o prêmio pelo roteiro original de Ela
O Momento da noite onde se premia o roteirista é um dos mais aguardados da cerimônia. Ainda por cima, serve de indicativo da tendência do filme em ganhar os outros prêmios restantes.

A categoria de Melhor
Roteiro Original
vai indicar aqueles projetos que foram escritos como fonte
primária. São os originalmente escritos para aquele filme indicado. A Academia
é rígida e não entrará nenhum roteiro que tenha partido de qualquer adaptação
externa.
Já no caso de Melhor
Roteiro Adaptado
, serão indicados os projetos que foram adaptados de uma fonte
diversa, como uma peça de teatro, romance, conto, etc. Mesmo se a fonte for
da mesma mídia, como foi o caso de Whiplash (Damien Chazelle, de 2014),
que teve o roteiro do longa baseado no curta de mesmo nome e do mesmo diretor,
ainda assim irá para a categoria de adaptado. No caso de Moonlight (Barry Jenkins, de 2016), o roteiro é adaptado de uma peça que não foi nem
montada, mas só por isso se encaixa na categoria.   

O começo de tudo
O que seria um roteiro de cinema? É só escrever
uma história num papel e colocar para filmar? Peço que o leitor me acompanhe e
vamos dar uma passada neste processo fundamental para qualquer filme.


Todo filme teve que nascer de algum lugar. Cada filme que
você viu teve uma ideia que virou uma premissa, que depois virou um argumento
e, posteriormente, foi transformado num roteiro cinematográfico. Todo cinéfilo
já teve, ao menos uma vez na vida, uma ideia “maravilhosa” que era um lindo
filme dentro de sua cabeça, mas quantos deles tentaram (e tiveram sucesso)
transformar essa ideia numa realidade? Passar sua história para um roteiro de
longa metragem usando diversas páginas de diálogos e descrições é uma tarefa
muito difícil. Só por isso já devemos mais respeito aos profissionais da
escrita. Então seria interessante alguns rápidos conceitos que ajudarão a
entender este papel inicial em uma produção.

História, roteiro e
narrativa

O que acontece é que um roteiro não é só contar uma
história. Se trata de transformá-la num guia completo contendo premissas,
descrições de local e hora, personagens, motivações, grau de complexidade,
estrutura dramática, relações de causa e consequência, conflitos, resoluções,
entre outras coisas. Tudo isso não vai funcionar para um filme se não for preparado
para uma filmagem. Um filme é um produto audiovisual, isto é, ele conta sua
história através de imagens e som.
As definições de “história” podem variar um pouco, até mesmo
entre alguns autores de teoria cinematográfica, mas vamos entender que ela é a
linha dos acontecimentos num filme, se tratando do desenrolar do enredo e das
ações, incluindo aquelas que não são diretamente mostradas, mas pode-se inferir
no contexto do filme. Digamos que é uma ideia mais “geral”, aquela que ainda
não tem uma visualização concreta. Mas então qual a diferença para o roteiro?

O roteiro é, no caso de um longa-metragem, um calhamaço de
aproximadamente 90 a 120 folhas (vai variar de acordo com o tamanho do filme,
que costuma ter uma taxa de 1 folha para cada minuto de filme) contendo a
transformação da sua história num guia de filmagem, apresentando os
elementos citados no primeiro parágrafo deste tópico. Um roteiro é um texto
baseado em uma estrutura que se liga através de ações dramáticas,
isto é, não é um texto literário onde se preza o ponto de vista subjetivo e
interno de um personagem, nem mesmo o teatral, onde os conflitos são enunciados
no palco; e sim um texto calcado em uma sequência de ações e descrições
passíveis de serem filmadas.
Só o leitor pensar o seguinte: se um roteirista deseja explorar um personagem em um filme, ele jamais escreverá longos monólogos de
pensamento para evidenciar sua complexidade, pelo simples fato de não fazer
sentido filmar um ator imóvel e esperar que o público adivinhe tudo o que se
passa na sua cabeça. Ao invés disso, o roteirista terá o trabalho (e o talento)
de transformar isso numa sequência de diálogos, ações e descrições, para que
justamente o diretor tenha um ponto de partida para traduzir a cena em um
conjunto de imagens e som, isto é, o produto final ao qual você está assistindo.
Mas então como nós, os espectadores, podemos entender um filme e,
principalmente, compreender as camadas e interpretar características subjetivas
dos personagens? Porque essas sequências de ações e descrições “montam” nossa
interpretação do filme indiretamente. Você, quanto espectador, é capaz de
entender a psicologia de uma cena através da interação dos personagens e da
ação filmada. Ainda posteriormente, a visão artística e concepção visual do
diretor serão as responsáveis por transformar tudo isso numa narrativa.

Página do roteiro de Cidade de Deus (Fernando Meirelles, Katia Lund, de 2002). Compare o que está lendo e o que é visto no filme.

Como vimos, os conceitos de história e roteiro não devem ser
confundidos, assim como o de narrativa. Ela é o mais importante, afinal de
contas. É o conceito de narração, isto é, o contar da história, através dos
meios relativos à linguagem a que pertence, no caso do Cinema, a linguagem
cinematográfica, compreendendo todos os elementos particulares da arte reunidos a fim
de contar sua história. É a maneira da qual o cinema se utiliza, que é a junção do roteiro
com as técnicas visuais, resultando numa história contada através das imagens.
Imagine o leitor que se um dia escrever um roteiro e tentar vende-lo para algum
produtor, seu filme pode resultar numa obra completamente diferente se fosse
dirigida por Oliver Stone, que preza por um ritmo mais ágil e um estilo mais
evidente, do que por Michael Haneke, que gosta de longos planos e tons
contemplativos. Se Stanley Kubrick dirigisse seu roteiro, seria um filme com
uma câmera de movimentos extremamente calculados, com planos mais longos e uma
certa frieza emocional. Já Steven Spielberg movimentaria mais a câmera e daria
tons mais melodramáticos para sua história. A narrativa é o grande “quê” dos
filmes. Não importa somente o fato se seu roteiro ser carregado de temáticas profundas e
personagens complexos, importa mais como essa temática e esses personagens lhe
serão mostrados. Cinema é também a jornada, e não somente o fim. 

Como o votante da Academia vai escolher o melhor roteiro… ou como ele deveria.

Afinal de contas, o que faz um roteiro ser bom? É uma pergunta
difícil de responder. Para cada pessoa no mundo, uma história traduzida num
roteiro pode ter diversos efeitos em quem assiste. Pode emocionar a uns e entediar a
outros. Seu amigo pode achar um personagem de um filme super interessante,
enquanto você o acha um porre. O “gostar” na arte depende de cada indivíduo.
Mas também é fato que existem formas, conceitos e paradigmas que foram
desenvolvidos durante anos e fazem um roteiro conter qualidades imprescindíveis
para funcionar da melhor maneira. Assim como existem vícios e recursos que
formam um consenso na hora de identificar um roteiro problemático. O que proponho aqui não é uma síntese acadêmica sobre todos os aspectos de um roteiro, até porque é um grande campo de estudo, mas escolhi alguns elementos que são intuitivos e identificáveis para o leitor que se interessa pelo cinema:

Desenvolvimento de
personagens

Dificilmente uma história vai funcionar bem se não houver ao
menos um personagem que tenha algum carisma e que possua um mínimo de
características que não o transformem num puro estereótipo. É claro que existem
graus de desenvolvimento dependendo do tipo de abordagem. Num filme de ação,
não é preciso que ele seja um ser altamente complexo com diversas
camadas psicológicas, basta que ele seja “humano”, isto é, que não se apresente como um
recurso ambulante de frases feitas e que demonstre o mínimo de ações a partir das quais
seja possível enxergar uma “personalidade”, e não somente, como dito, um
estereótipo. Esse processo é importante pois te diz quem é o personagem e se ele age de acordo com suas características.
Em Breaking Bad (2008 – 2013), por exemplo, Walter White é um personagem
repleto de nuances e ações que deixam implícito sua personalidade tridimensional,
de pai dedicado e excelente profissional a um orgulhoso que beira a sociopata.
Já em grande parte dos filmes de terror comerciais, imperam personagens que são
completamente unidimensionais: o burro, o desastrado, o nervosinho, o digno, a
mocinha. Esses acabam formando cartilhas pré-moldadas que tendem a não despertar
nenhuma simpatia.

Arco dramático

É a trajetória do personagem em um filme e como ele
atravessa os conflitos. Veja como seu protagonista começou e como ele terminou.
A maioria dos roteiros se baseia em personagens que atravessam um arco
definido através de superação de obstáculos. Se bem feito, traduz uma história
que tem profundidade e diversos caminhos a serem percorridos. Um exemplo comum
e definitivo é o de Michael Corleone, da trilogia O Poderoso Chefão (1972 – 1974 – 1990), que atravessa um extenso e profundo arco. Na
primeira parte, é o filho mais novo que não planejava se envolver nos negócios
da família e apresentava um comportamento amoroso com a esposa e cauteloso com
os irmãos e pai. No segundo filme, passa a ser o chefe dos Corleone, a tratar
com crescente indiferença a esposa e a se tornar cada vez mais severo com os
negócios. Na última parte se revela um homem arrependido de coisas do passado,
tentando fugir das consequências e terminando de maneira oposta à de seu pai,
Vito Corleone.  

Michael Corleone (Al Pacino)


Estrutura

É a organização de um roteiro. A maneira como suas diversas
partes vão formar um todo. Como se organizam os conflitos? Em que ponto eles
aparecem? Ao longo do tempo, ficou claro que a forma estrutural dos roteiros de
cinema, principalmente no campo mais comercial, seguia uma série de convenções
que se mostraram bem compatíveis com grande parte da produção cinematográfica.
São conceitos que vêm desde a Antiguidade até à aplicação na sétima arte.
O escritor Syd Field, em seu famoso Manual do Roteiro, reúne essas convenções numa estrutura primária
de 3 atos. Pegando um exemplo de um roteiro de 120 páginas (um filme de 2
horas), é possível identificar, em grande parte dos filmes, pontos de virada que
dividem o filme em primeiro, segundo e terceiro ato. Resumindo, o primeiro ato
é o que apresenta os personagens e estabelece as condições da premissa do
filme. Vai aproximadamente até a página 30 (lembrem-se, aproximadamente). A
partir desse ponto, acontece uma virada e o personagem se vê diante de um
conflito, começando então o segundo ato, onde diversos obstáculos serão
enfrentados. A partir da página 90, um outro ponto de virada acontece e começa
o processo de resolução, onde durante as 30 páginas finais, o protagonista solucionará
os conflitos e fechará o seu arco.
Parece muito matemático, mas Field não diz em seu manual que
essa estrutura é uma regra rígida ou fácil de ser identificada, mas, de fato, é
observável em grande parte dos roteiros, principalmente em filmes mais
formulaicos, como são os de puro gênero (ação, melodrama, terror, etc). Existem
outros autores que usam separações e até paradigmas bem diferentes, mas num
contexto para a maioria dos espectadores, os 3 atos ainda são bastante observáveis
e ainda são essenciais para quem considera escrever um roteiro um dia.



Causa e consequência

É uma das principais relações que regem a forma de um filme.
Um roteiro, como dito antes, é baseado em uma estrutura de personagens
enfrentando conflitos, sejam eles diretos ou totalmente psicológicos. Na forma
mais clássica, o filme é inteiramente fundamentando nessa relação. Significa
dizer que todas as cenas que compõem o longa servem de ligação direta com
próxima (causa e consequência). Porém, durante a história do cinema, algumas
vanguardas quebraram essa convenção de forma, por exemplo no Neorrealismo
Italiano e na Nouvelle Vague, quando algumas sequências pareciam deslocadas da
narrativa principal, mesmo servindo para algum outro propósito. Hoje é mais
comum que os filmes não se sintam obrigados a seguir o formato clássico.
Quantos filmes você já viu em que diversas cenas pareciam não contribuir
diretamente para a ação, mas acabavam tendo outra função (vários diálogos dos
filmes de Quentin Tarantino).

Em Cães de Aluguel (Quentin Tarantino, de 1992) os personagens são apresentados através de uma hilária conversa sobre Madonna e a letra de Like a Virgin. O diálogo não exerce função direta na narrativa, mas ajuda a estabelecer um clima de descontração que se contrapõe muito à violência posterior. 


Pista e recompensa

É uma ferramenta bastante utilizada, principalmente em
filmes que se baseiam em resoluções de mistérios, como O Sexto Sentido (M. Night Shyamalan, de 1999), onde as pistas são plantadas ao longo do filme (a
cor vermelha, o fato do protagonista não interagir com ninguém, a queda de
temperatura no ambiente) para depois ser entregada a recompensa (a realização
no desfecho). Caso também de Os
Suspeitos
(Denis Villeneuve, de 2013), quando um apito de criança é aparentemente mostrado de maneira
irrelevante no começo, para depois ter um papel crucial no final.

Lógica interna

É a lógica que sua história vai estabelecer para servir como
a realidade daquele filme. Na trilogia O Senhor
dos
Anéis (2001 – 2002 – 2003) existem elfos, anões e
hobbits. Em filmes de ação, ninguém se machuca seriamente num gigantesco
acidente de carro. Questionar a verossimilhança aplicando uma realidade
diferente do filme não prejudica a lógica. Quando isso acontece, dizemos que
são os famosos “furos de roteiro”, quando as premissas são desobedecidas de
maneira conveniente para explicar um acontecimento.

Diálogos

Eles são necessários para um filme? Certamente que não. Há
aproximadamente 30 anos de história do cinema mudo que comprovam sua capacidade
em contar histórias usando apenas imagens (ou poucos letreiros). Nesta edição
do Oscar, por exemplo, temos A Tartaruga
Vermelha
(Michael Dudok, de 2016), uma bela animação sem diálogos que consegue perfeitamente contar
sua história e ainda apresentar profundidade. Porém hoje, os filmes são
falados. Os diálogos são parte fundamental da ação que parte dos personagens. Eles
compõem sua psicologia, revelam suas motivações e são ferramentas excelentes
para aprofundar a história (vide os filmes de Woody Allen). Mas existe uma
frase no cinema que diz “mostre, não conte”, isto é, os diálogos são ferramentas
de composição indireta, não devem servir para enunciar, explicitar diretamente
e explicar para o expectador o que já é possível ver na imagem. Esses são os
famosos diálogos expositivos, que quando usados sem controle, evidenciam um
roteiro descuidado.

No Cinema

Deu pra ter uma ideia da importância que um roteiro bem escrito exerce no filme que você assiste, não é mesmo? Costuma-se dizer que um bom roteiro pode render um filme aceitável com um diretor ruim, mas que dificilmente um bom diretor conseguirá um bom resultado com um roteiro mal escrito. Mesmo que, como dito na definição de narrativa, um filme seja a união de tudo, e que você ainda possa apreciar o estilo e as técnicas por si só, um filme nunca estará completo sem uma história bem desenvolvida.

Leitor, gostou da matéria? Também acharia interessante saber mais sobre o processo criativo de um filme? Comente o que achou e obrigado pela leitura.


* Fundamentação em Manual do Roteiro (Syd Field) e Por Dentro do Roteiro (Tom Stempel)


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