Crítica: Até o Último Homem (2016, de Mel Gibson)

Quando O Resgate do Soldado Ryan foi lançado em 1998, a
maneira como os diretores retratariam as batalhas mudou definitivamente. Bem
acostumados a acompanhar épicas histórias de guerra, o espectador do cinema
americano, principalmente, já estava habituado com a forma narrativa que os
filmes de guerra apresentavam desde a era clássica de Hollywood. Havia, claro,
sempre as sequências esperadas de batalha e os arcos dramáticos de heróis
combatentes. Se mesmo nessa época já tínhamos icônicos exemplares de filmes com
mensagens anti-guerra, como Sem Novidade no Front (Lewis Milestonse, de 1930),
o excepcional Glória Feita de Sangue (Stanley Kubrick, de 1957) e até o
clássico O Grande Ditador (Charles Chaplin, de 1940), foi com o longa de
Spielberg que a câmera sofreu junto com o soldado o horror da trincheira. Claro
que filmes como Apocalypse Now (Francis Coppola, de 1979), Platoon (Oliver Stone, de 1986) e Além da Linha Vermelha (Terrence Malick, de 1998) já haviam
explorado a violência gráfica da guerra, mas não com a imersão e o realismo de
primeira pessoa que o ganhador de Montagem, Fotografia e Diretor do Oscar de
1999 alcançou.

A partir daí, a influência da direção de Spielberg se
espalhou e o realismo da guerra passou a ser figura obrigatória para a maioria
dos filmes do gênero. Agora temos a chegada de Até o Último Homem, dirigido por
Mel Gibson, estrela da década de 80 e 90 que retorna na direção depois de 10
anos (o último no currículo foi Apocalypto, de 2006). O filme é mais uma
história edificante sobre um combatente que faz a diferença numa guerra e
promete não poupar na violência quando o assunto for a batalha em si. Mantendo
a tendência de não se censurar neste aspecto (vide Coração Valente e A Paixão
de Cristo
), o diretor realiza uma obra que faz jus ao histórico recente do
subgênero no que diz respeito a retratar a intensidade e crueldade da guerra,
ainda que se mantenha confortável na sua história ao não conseguir escapar de
alguns clichês e de uma mão pesada no arco dramático do protagonista.




Desmond Doss (Andrew Garfield) é um jovem americano que,
durante a Segunda Guerra Mundial, resolve se alistar no Exército ao ser
motivado por seus fortes princípios patrioticos e religiosos. Ele deixa sua cidade, sua
namorada Dorothy (Teresa Palmer) e seus pais Tom e Bertha (Hugo Weaving e
Rachel Griffiths) para se juntar aos comandos do Sgt. Howell (Vince Vaughn) e
do Capitão Glover (Sam Worthington) na famosa batalha de Okinawa. Lá se torna
um Opositor Consciente, que consiste em abrir mão de deveres no Exército em
razão de valores religiosos e morais.


Em termos de estrutura, o filme não foge em nenhum momento
do que já é bem usual para o gênero: Doss é apresentado primeiramente com a simplicidade, embora já com o porte de dignidade de quem é o primeiro a correr
para socorrer um acidentado, de um jovem que, ao se deparar com o horror da
batalha, simbolizará o velho arco da inocência perdida na guerra. O roteiro de
Andrew Knight e Robert Schenkkan tem um primeiro ato que não se afasta dos
clichês: o rapaz conhece a moça, se apaixona e se depara com a escolha de
deixar a promessa de uma boa vida para lutar numa guerra distante. 

O que torna a apresentação de Doss melhor que no papel é a
boa química entre Palmer e Garfield, e este merece muito crédito ao transformar
Desmond num jovem que consegue despertar a simpatia do público rapidamente.
Embora as situações sejam bastante batidas, os diálogos e as interações entre o
casal são espirituosos e conseguem exibir um frescor cativante para a parte
inicial do filme. O ator se sai muito bem ao representar a dignidade e
valoração moral religiosa de maneira que não soe caricato. Na segunda metade do
filme, também não falta ao ator a intensidade necessária para contrastar a
personalidade inicial de Doss com a loucura do campo de batalha.


Quando Desmond parte para o treinamento, o roteiro também
não deixa de oscilar entre erros e acertos. É um ótimo ponto, por exemplo, que
alguns dos colegas de batalhão são apresentados como bullies
, mas não ficam limitados
a agir como tal o restante do filme. Um deles, inclusive, ganha contornos
interessantes ao longo do filme, evitando que se tornasse um recurso barato
para servir de antônimo moral de Desmond. Já outros não conseguem apresentar
nada novo no gênero. O Sgt. Howell, interpretado muito corretamente por Vince
Vaughn, acaba protagonizando o clichê do superior que grita com os soldados na
fila do alojamento, algo que se tornou quase uma muleta narrativa depois do
Sgt. Hartmann, de Nascido Para Matar (Stanley Kubrick, de 1987), ainda que este
também, felizmente, não termine da mesma maneira que começou.

Mas é mesmo quando começam as sequências de
batalha é que o filme ganha mais força, ainda mais depois de uma conclusão da primeira metade que achei levemente decepcionante (algo que envolverá uma “carteirada”
em favor de Desmond). Mel Gibson demonstra que não perdeu sua habilidade em unir
o tom épico com a violência da batalha. Orquestrando muito bem as sequências de
explosão, correria e tiros, o cineasta demostra domínio ao entender que o
espectador precisa de uma montagem precisa e de enquadramentos planejados para
que a lógica espacial seja eficiente. O ritmo que é impresso na segunda metade consegue dosar a intensidade e os momentos de calma com bastante
qualidade. O resultado é o horror da guerra sendo mais uma vez retratado com
brutalidade e espetáculo no cinema.


Neste ponto, cabe a discussão sobre como a Arte lida com
eventos acontecidos na vida real. Pelos trailers e sinopses, já é estabelecido
que Desmond é um Opositor Consciente, isto é, em razão de suas crenças
religiosas, ele acredita que pode fazer a diferença na batalha sem ter que
tirar uma vida sequer. Para isso ele se torna um médico de campo, aquele que
tem o trabalho de salvar a vida dos feridos no meio da carnificina da batalha.
Não há dúvidas que as ações do verdadeiro Desmond Doss foram absolutamente
heroicas. É natural que esse tipo de história seja a razão de servir como um
grande drama edificante sobre o melhor da natureza humana. A Arte é justamente
o meio pelo qual é possível usar qualquer premissa, inclusive as originadas de
histórias reais, para realizar um produto cujo objetivo seja discutir e
refletir sobre o objeto do autor. Por isso não acredito ser necessário que se
santifique por demais a figura do protagonista. Só é necessário tratá-lo como
ser humano dotado de ações extraordinárias, não como um ícone, no sentido que a
direção de Gibson passa a tratar Desmond como figura que vai caminhando quase
para uma caracterização celestial. Tanto é que a mão do cineasta pesa quando
abandona a sutileza ao enquadrar o protagonista, por exemplo, em longos planos com ângulos edificantes e câmera lenta, ou quando o vemos através de um plano
subjetivo sendo praticamente venerado por todo o batalhão. Pode-se argumentar,
claro, que o personagem real deveria sim ser venerado por suas ações, mas um
filme só conta com duas horas, e gastar um bom tempo transformando uma pessoa
em uma “imagem” pode afastar justamente seu caráter mais humano.  
  
  
Falando assim, até pode parecer que Até o Último Homem seja
um filme mais ou menos, mas não é. É uma história que tem um potencial de
agradar um grande público, uma direção de sequências de batalha excelente e ótimas
atuações.  Cabe ao espectador decidir o
quanto é possível retratar as ações de Desmond Doss sem que isso parta para o heroísmo
inflado das produções americanas. De qualquer maneira é gratificante para os
cinéfilos que o diretor de Coração Valente esteja de volta e ainda exiba parte
de sua vitalidade como realizador.


Título Original: Hacksaw Ridge

Direção: Mel Gibson

Elenco: Andrew Garfield, Teresa Palmer, Vince Vaughn, Sam Worthington, Hugo Weaving, Rachel Griffiths

Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico do exército
Desmond T. Doss se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas. Porém, durante a
Batalha de Okinawa ele trabalha na ala médica e salva mais de 75 homens, o que faz de Doss o primeiro Opositor Consciente da história
norte-americana a receber a Medalha de Honra do Congresso.

Trailer


Deixem seus comentários, sugestões e opiniões sobre o retorno de Mel Gibson na direção.

1 thought on “Crítica: Até o Último Homem (2016, de Mel Gibson)”

  1. A direção é incrível, acho que Mel Gibson nos demonstrou novamente seu grande talento neste filme. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande, acho que são as melhores historias, porque não necessita da ficção para fazer uma boa produção. Gostei muito de Até o último homem, não conhecia a história e realmente gostei, acho que é um dos melhores filmes de drama é muito bom! É impossível não se deixar levar pelo ritmo da historia, achei um filme ideal para se divertir e descansar do louco ritmo da semana.

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