OS AMANTES PASSAGEIROS (LOS AMANTES PASAJEROS, ESP, 2013)

(Crítica publicada por “Anjo Da Guarda”, com seu nome
original, no caderno de Cinema da Rede Bom Dia de jornalismo, edição de
Itatiba, São Paulo)


“Engraçado e, por vezes sínico, o novo Almodóvar tinha a pretensão de
fazer alusão à época que marcou a filmografia do diretor, mas a proposta não
decolou.”




Mesmo Pedro Almodóvar sendo um gênio, a tarefa de
retornar ao clima que o ajudou a tornar-se um sucesso e imortalizou seus filmes
da década de 80 e 90, não é tão fácil quanto pareça. Num momento em que a crise
assola a Europa e, em especial, a Espanha, todo o andamento tende a ser
influenciado e tende a constar. É isso que fica nítido em “OS AMANTES
PASSAGEIROS (Los Amantes Pasajeros, Espanha, 2013) ”, a ideia do diretor era
fazer uma espécie de retorno as comédias “barbadas” que dirigiu entre a década
de 80 e o final da década de 90, tais como “KIKA”, “ATA-ME” e a obra prima da
fase “MULHERES A BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS”. Havia um despojo, uma
peculiaridade cômica e uma excentricidade nas histórias, sempre com personagens
muito engraçados e sínicos demais. A figura da mulher, com a sexualidade a flor
da pele e a figura do canastrão eram temas centrais. 






Depois, ao final da década
de 90 o diretor foi tornando-se mais eloquente e mais questionador, dirigindo
dramas existenciais e dando mais atenção aos temas ligados a homossexualidade,
bem como suas desmembrações. São consideradas obras primas dessa fase os filmes
“TUDO SOBRE MINHA MÃE” e “FALE COM ELA”, filmes que tratam da identidade do
“homem”, da elaboração de sua imagem e da ligação entre os seres humanos. O
tabu e a polêmica, sempre presentes na obra do diretor, passaram a ser ainda
mais presentes, em “MÁ EDUCAÇÃO” o diretor rompeu uma espécie de barreira, até
mesmo para si próprio, ao abordar a pedofilia, o abuso sexual, dentro da
instituição católica. E assim tornou-se um gênio, um ícone do Cinema espanhol,
bem como de todo o Cinema, uma referência e um militante das artes
cinematográficas. De fato, antes mesmo de a crise financeira assolar a Europa,
o diretor sentiu a crise tentando assolar o próprio Cinema, a falta de
engajamento, as dificuldades pelas quais muitos outros países enfrentaram
antes, foram fatores contribuintes para o Cinema oriental, europeu e depois ocidental.
Na verdade todos os diretores sentiram, uns resvalaram mais e outros menos.
Almodóvar foi um dos que tentou subsistir. De uns tempos pra cá sua obra deixou
aquela eloquência toda, tornou-se, por vezes, mais comercial, o que também
resulta num efeito pós 119 de 2001, o que é inegável ignorar. 




A questão é que em “OS AMANTES PASSAGEIROS” a pretensão não decolou mesmo. O filme ficou parado na “comédia pastelão” com toques superficiais dos gêneros que ali quis incutir. Num Voo com destino ao México um problema faz com que o avião fica impossibilitado do pouso e plaine por horas no ar dando voltas sobre Montevidéu. A tripulação formada por gente diferente demais uns dos outros passa a interagir com os 3 gays que trabalham na classe. Uns fazem revelações, outros fazem sexo, mas todos estão aflitos e nada é o que parece. Almodóvar parece querer fazer um diagnóstico da situação das pessoas em meio a terrível crise na Espanha, onde o país parece dar voltas em círculo e não chega a lugar nenhum. Mas nem a isso se presta eficazmente. Algumas situações arrancam mesmo o riso, afinal só o diretor para imaginar uma vidente de quase meia idade, virgem ainda e louca para transar, uma das tripulantes do avião. O que vale mesmo a pena é um número musical apresentado pelos 3 homossexuais ao som da música “I’m So Excited” de 1982. Se o intuito do diretor não alcançou o esperado, pelo menos serve pra divertir, embora onde o nome de Almodóvar está, também está a nossa obrigação em assistir.


NOTA: 7


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